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Complicações pós-cirúrgicas: como as tecnologias bioabsorvíveis previnem fibroses e aderências cicatriciais

01 de setembro de 2026Bruno RizzoBruno Rizzo

A aderência não aparece no pós-imediato. Aparece na dor que não passa, na fertilidade que não vem e na reoperação que encontra um plano que não existe mais.

 

Existe uma categoria de complicação cirúrgica que quase nunca entra na conversa da alta. Não aparece no relatório, não aparece na visita do dia seguinte, não aparece na foto do controle. Ela aparece depois — meses ou anos depois — e quando aparece já não parece consequência da cirurgia. Parece outra coisa: uma dor que não passa, uma gestação que não vem, uma reabordagem que leva o dobro do tempo prevista.

São as aderências pós-operatórias. E o incômodo delas é que não vêm de um erro. Vêm da cicatrização funcionando exatamente como deveria.

Por que o corpo cria aderência

Toda superfície tecidual traumatizada durante uma cirurgia inicia a mesma sequência: inflamação, exsudato rico em fibrina, deposição dessa fibrina sobre as superfícies expostas. Em condições normais, a fibrinólise degrada esse depósito em poucos dias e a cicatrização segue sem sequela mecânica.

O problema começa quando o depósito de fibrina não é degradado a tempo. Se duas superfícies traumatizadas permanecem em contato durante essa janela, a fibrina que as une deixa de ser provisória: fibroblastos migram para dentro dela, depositam colágeno e organizam o que era um coágulo em tecido fibroso permanente. A aderência está formada — e ela não se desfaz sozinha.

O mesmo mecanismo, três consequências diferentes

O que muda de uma especialidade para outra não é a biologia. É o que a aderência atrapalha quando se forma naquele lugar.

Ginecologia: o custo é reprodutivo

Na cavidade uterina, as aderências recebem o nome de sinéquias, e o quadro estabelecido é a síndrome de Asherman. Elas dificultam a implantação do embrião e aumentam o risco de falhas reprodutivas. São comuns depois de procedimentos que traumatizam o endométrio — curetagem, AMIU, miomectomia histeroscópica — e, nos casos moderados e severos, a taxa de recorrência após a adesiólise é elevada. Ou seja: tratar depois funciona menos bem do que impedir que se formem.

Na cavidade peritoneal, o desfecho é outro: dor pélvica crônica, obstrução, infertilidade por fator tubário e uma reoperação tecnicamente mais difícil.

Coluna: o custo é a próxima cirurgia

No espaço epidural, o tecido cicatricial adere à dura-máter e às raízes nervosas. A consequência mais citada é a dor persistente após laminectomia, mas há uma segunda, menos discutida e igualmente séria: a reabordagem. O cirurgião que reopera uma coluna com fibrose epidural não encontra os planos que esperava. A dissecção fica mais lenta, o risco de lesão durante a liberação aumenta, e o tempo cirúrgico cresce.

É um custo que se paga anos depois, numa cirurgia que talvez nem seja feita pela mesma equipe.

Tendões e nervos periféricos: o custo é funcional

Aqui a lógica é a mais direta de todas. Um tendão precisa deslizar. Se ele adere ao tecido vizinho durante a cicatrização, o reparo pode estar tecnicamente perfeito e o resultado funcional ser ruim — o paciente recupera a anatomia e não recupera o movimento. Em nervo periférico, a aderência ao leito compromete a mobilização e pode gerar sintoma neuropático.

O tamanho do problema

Os estudos que embasam o Oxiplex/AP trazem três números que ajudam a dimensionar:

 

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Bruno Rizzo

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